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domingo, 11 de maio de 2014

Copa e Olimpíadas no Brasil... o que fica é a frustração...



Imagina que você tem um grupo de amigos de infância que se reúne sempre de quatro em quatro anos para uma grande confraternização. Muitos vem de longe para a festa porque moram em outras cidades. Dessa fez você será o anfitrião e você quer que tudo seja perfeito, afinal os últimos encontros foram grandes festas e você não quer fazer feio. 

Para receber todo mundo bem você pretendia fazer algumas reformas em casa, mas a obra não andou da forma que você esperava. Algumas coisas não vão ficar prontas há tempo da festa e o custo foi bem maior do que você esperava. Para completar, recentemente você teve um tremendo arranca rabo com a sua esposa e vocês não estão se falando direito. Apesar dela achar que você está gastando demais com a festa o motivo da briga não foi só esse, vocês já não estão se dando bem faz um tempo e o clima não está bom dentro de casa. 

Há trinta dias da Copa do Mundo de 2014 e há cerca de dois anos das Olimpíadas do Rio é exatamente assim que eu me sinto. Uma tremenda festa vai acontecer aqui, querendo ou não ela vai acontecer pois seus convidados já estão a caminho, mas a nossa casa não está pronta e muito menos em clima de festa.

Lá em 2007 e 2009 quando o Brasil foi confirmado como país sede para a Copa e para as Olimpíadas eu fui um dos que comemorou muito. Como um fanático por esporte acreditei que estes eventos eram a chance de mudarmos a vida de muita gente no país, principalmente as Olimpíadas. Era a nossa chance de ter um ciclo olímpico amplo, impulsionar os esportes amadores no Brasil, criar centros de formação espalhados pelo país, apresentar esportes desconhecidos para os patrocinadores, resumindo, usar o esporte como ferramenta de transformação econômica e social.

No caso da Copa o maior legado não seriam os estádios, muito menos o turismo, e sim a infraestrutura. Principalmente em aeroportos e mobilidade urbana. Ter uma capital como São Paulo ou Rio com o Metrô integrado com o aeroporto seria totalmente possível, mas não fomos nessa direção, preferimos sonhar com um trem bala que desde o começo não passou de promessa eleitoreira (assim como o metrô de superfície de Vitória).

O sentimento para muitos brasileiros hoje é de que a Copa não é uma coisa boa e não deveria acontecer. A questão é que a Copa não é só pra gente, o mundo todo vai estar olhando para cá, e de olho não só no que acontece dentro dos estádios mas também no que acontece fora. Para o alemão, inglês, americano ou japonês que vier ao nosso pais a imagem que vai ficar é de um povo que pediu para organizar um evento e não conseguiu fazer direito.

Nós brasileiros sempre colocamos a culpa pelo nosso fracasso como nação nos outros, e ficamos todos melindrados quando um jornal estrangeiro noticia os nossas mazelas. Desculpem-me a franqueza mas quem pediu para FIFA fazer a copa aqui fomos nós, e não o contrário. Demonizar o futebol no Brasil, dizendo que quem apoia a copa é alienado pra mim é radicalismo e não leva a nada. Desculpa companheiro, se o estádio foi superfaturado e o aeroporto não ficou pronto a culpa não é do Neymar. Do mesmo modo se o Brasil for campeão, não vai ser mérito te governo nenhum.



Sei que é difícil, o assunto é polêmico, mas vou tentar ao máximo separar o esporte da política no caso da copa, sou louco por futebol e não me vejo torcendo contra a seleção, por outro lado sei que se o Brasil for campeão isso vai ser usado politicamente e isso teria consequências diretas nas eleições. Cabe a quem consegue fazer essa separação, difundir esse ponto de vista.

Já para as olimpíadas acho o caso até mais delicada, essa semana surgiu na imprensa uma notícia de que o COI teria sondado Londres, sede de 2012, e perguntado se no caso do Rio falhar na organização eles poderiam assumir os jogos de 2016. Hoje, apenas 10% das obras necessárias estariam prontas. Mesmo que isso não tenha acontecido de fato, só um boato desses ter surgido e noticiado já é uma baita vergonha.

No fim, o sentimento que fica é o de frustração, o sentimento de que estamos perdendo duas grandes chances de melhorarmos as coisas no Brasil, de darmos um passo a frente. Perdendo a chance de deixarmos de ser o "País do Futuro" e continuando a ser o país da corrupção e do jeitinho. A festa com os amigos vai acontecer, mas a casa vai continuar sem melhorar, e o clima entre o "marido" e a "esposa" tem tudo para ficar pior.

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Carlos Alberto Sardenberg: A sinuca entre o preço da Gasolina e a Inflação


Texto de Carlos Alberto Sardenberg publicado em vários jornais pelo Brasil essa semana.

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Como conseguem?

É embaraçoso para o governo Dilma: como dizer que o automóvel particular a gasolina agora é o bandido, depois de ter passado anos dando-lhe tratamento de rei?

Não é modo de dizer. Os carros tiveram seus preços abatidos, via redução de impostos, e as montadoras locais foram apoiadas com proteção e financiamento subsidiado para aumentar a produção. Os compradores também foram brindados com enorme ampliação do crédito - nada menos que R$ 52 bilhões concedidos nos últimos dois anos.

De presente extra, a gasolina com o preço congelado e contido, para segurar a inflação e evitar a bronca dos motorizados.

Agradecidos, os brasileiros, especialmente os da nova classe média, foram à luta, quer dizer, aos bancos e concessionárias, e cumpriram sua obrigação de apoiar o crescimento do PIB. Saíram de carro por aí.

Infelizmente, a Petrobrás não conseguiu entrar na festa. Sua produção de petróleo estagnou, as refinarias não deram conta da demanda, as novas refinarias estão atrasadas, de modo que a estatal precisou importar cada vez mais gasolina. E a preços não brasileiros, claro.

Não é de estranhar que o resultado tenho saído muito errado. A inflação continuou elevada e  o crescimento permaneceu muito baixo. Sempre se pode dizer que tudo teria sido pior com a gasolina e os carros mais caros. Mas pior comparado com o que? De todo modo, o fato é que muitas outras coisas também deram errado. A Petrobrás, perdendo receita, sendo obrigada a vender gasolina mais barato do que importa, teve que se endividar. E  as ruas ficaram congestionadas, pois não se investiu na infraestrutura necessária para acolher os carros e abrir caminhos para o transporte coletivo.

Como consertar isso, considerando ainda mais que a Petrobrás precisa de dinheiro, muito dinheiro, para o pré-sal? E lembrando que o dólar caro veio para ficar?

Claro, precisa aumentar o preço da gasolina para turbinar as receitas da estatal. Quanto? Se for apenas para equilibrar o preço atual, pelo menos 20%. Se for para recuperar perdas passadas, uns 30%. 

Mas isso jogaria a inflação de novo para cima do teto da meta - 6,5% - e provocaria uma justa bronca na classe média. Qual é? Não era para comprar carro?

Que tal, então, um aumento moderado para a gasolina e para o diesel? Ruim também. Talvez pior. Provocaria inflação de qualquer jeito - pois o índice está rodando em torno do teto - não resolveria o caixa da Petrobrás e deixaria todo mundo aborrecido.

E para complicar, tem mais essa proposta do prefeito de São Paulo, Fernando Hadad, de colocar um imposto de 50 centavos por litro de gasoloina e  usar todo o dinheiro para subsidiar e reduzir tarifas de ônibus. Para efeitos de índice de inflação, a redução da tarifa compensaria a alta da gasolina, mas vá explicar para o pessoal que está tudo bem com a gasolina a R$ 4,20.

Imaginem o impacto psicolólogico e social, pois a gasolina subiria em dose dupla, uma para a Petrobrás, outra para os ônibus. E como estes passam a ter prioridade, os brasileiros que micaram com os carros pagarão mais caro para ficar em congestionamento mais demorado.

Como o governo pode ter se equivocado tanto? 

Seria uma pergunta cabível se o resto estivesse funcionando. Mas considerem apenas o que tem saído na imprensa nps últimos dias.

As usinas de Jirau e Santo Antonio, em construção no rio Madeira, vão gerar uma carga de energia que não pode ser levada pela linha de transmissão projetada. Simplesmente queimaria tudo. A linha é insuficiente. Sabe-se disse desde 2010 - e ainda estão discutindo para descobrir de quem é a culpa.

Mas deve estar sobrando energia, não é mesmo? Usinas eólicas estão prontas e paradas há um ano, por falta de linhas de transmissão.

Há uma guerra judicial no setor elétrico, com o governo tentando empurrar para empresas a conta da energia produzida nas usinas térmicas. 

Há milho para ser estocado, uma superprodução,  e armazéns da Conab fechados por falta de manutenção ou porque estocam milho... velho. 

Na política econômica, o Brasil é o único país importante que está subindo juros. É também o único emergente de peso que não pode se aproveitar do momento internacional para deixar a moeda local se desvalorizar o tanto necessário para dar muito competitividade às exportações. 

Uma ironia: a "nova matriz" do governo, alardeada pela presidente Dilma, se baseava em juro baixo e dólar caro, para ter crescimento elevado. Pois no momento em que o dólar sobe sózinho, por conta dos EUA, o BC brasileiro tem que elevar os juros e tentar segurar o dólar para controlar a inflação. E lá se vai o PIB.

Uma ironia pedagógica, se é que conseguem aprender com tantos equívocos. 

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